
Franz Kafka foi autor de referência para muitos autores centrais da literatura contemporânea. Não só um dos escritores mais importantes do séc XX, é também o mais influente e mais original. Morreu há cem anos, mas a sua obra parece saída do futuro. Influenciou a literatura que veio depois, mas também a música, o cinema e outras artes.
Com Kafka Vai ao Cinema, o realizador Hanns Zischler explica que “em 1978, quando trabalhava num pequeno filme sobre Kafka, descobri pela primeira vez no seu diário e na sua correspondência apontamentos que ele tinha feito sobre o cinema e sobre os filmes que vira. (...) o seu tom excitado, apaixonado e melancólico indicava as vivas emoções que Kafka sentia no cinema.” Assim, este ensaio mostra a pesquisa de Zischler sobre a relação do escritor com o cinema, entre Praga, Verona e Paris, misturando imagens de época e outras de 2002, e conhecendo personalidades que clarificam as ideias do realizador. A sessão tem lugar de 11 de Novembro, às 18h30, no Cinema São Jorge, acompanhada de uma conversa com o realizador.
Apresentamos também Kafka – (un)musical ! (?), um recital com excertos dos diários de Kafka, alguns contos ou excertos de contos, cartas e alguns poemas dispersos. Serão ouvidas obras de Kurtág, Petr Eben, Brahms, Max Brod, Krenek, Bizet, Ligeti e Wagner. As obras de Eben, Brod e Krenek têm agora a sua estreia em Portugal. Terá lugar no Auditório do Liceu Camões, às 18h do dia 12 de Novembro.
O Processo, de Orson Welles, assenta numa adaptação distópica do livro homónimo de Kafka, e acompanha Joseph K. (Anthony Perkins), um empregado de escritório que é detido e levado a tribunal por acusações que nunca chegará a conhecer. Uma crítica aos sistemas totalitários e à lógica opressora dos grandes estúdios de Hollywood, a narrativa surrealista do filme aliada a uma estética expressionista, levam Orson Welles a considerar O Processo o melhor filme da sua carreira, com sessão marcada para dia 12 de Novembro, às 16h, e conversa com o encenador Krystian Lupa e Hanns Zischler.
Há também encontro marcado com Krystian Lupa no dia seguinte, 13 de Novembro, às 18h30, no Cinema Nimas. A entrada é gratuita para este evento, onde poderemos ver um longo excerto filmado da encenação que fez de O Processo, e onde ele irá explicar detalhadamente o processo de pesquisa e encenação da peça, as dificuldades que encontrou no seu percurso e como estes elementos influenciaram a sua relação com o universo de Kafka.
Já com O Castelo, de Michael Haneke, (13 de Novembro, às 21h, no Cinema Medeia Nimas), baseado num dos livros mais inquietantes de Kafka, mergulhamos num universo de desconforto e confusão, quando um agrimensor é chamado para trabalhar numa aldeia à volta de um castelo e tem que provar a sua legitimidade. Por sua vez, O Castelo, de Rudolf Noelte, distingue-se como sendo a primeira adaptação fílmica da obra homónima de Kafka. Simultaneamente, marca o primeiro e único filme do realizador, cuja carreira foi maioritariamente dedicada ao trabalho na televisão, no teatro e na ópera. A obra de Rudolf Noelte destaca-se pelo seu carácter pessimista e pelos visuais grotescos, que tão bem capturam o surrealismo Kafkiano. Dia 13 de Novembro, às 16h30, no Cinema Medeia Nimas.
Uma double bill a 16 de Novembro, às 21h, no Cinema Medeia Nimas, encerra este ciclo dedicado a Kafka. Primeiro, uma curta: Chacais e Árabes, de Jean-Marie Straub, que nos apresenta uma mulher num apartamento que afirma ser “o chacal mais velho”. Neste deserto, um homem do Norte pede-lhe que intervenha no conflito entre chacais e árabes. Breve e frontal, Chacais e Árabes é uma adaptação do conto homónimo de Kafka como um kammerspiel, que Straub transforma num protesto a todas as formas de ódio. Depois, América - Relações de Classe, também de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub, é adaptado a partir do romance inacabado de Franz Kafka, Amerika. Esta é uma obra sobre um jovem burguês alemão emigrado na América individualista e capitalista dos anos 30 e tudo o que está nos planos do filme, como na escrita de Kafka, ocupa o espaço da nossa atenção, como se, a cada instante, se agarrasse o mundo. No final, haverá conversa com Krystian Lupa, Hanns Zischler, e Paulo Branco.
O LEFFEST não só homenageia Kafka, como também provoca uma reflexão sobre as complexidades da condição humana e os sistemas que nos oprimem. Ao celebrar esta conexão, as obras em exibição convidam-nos a revisitar e reinterpretar o legado duradouro do artista, revelando como as suas ideias continuam a ressoar na contemporaneidade.