Centenário da morte de Kafka assinalado no LEFFEST

02.11.2024

Franz Kafka foi autor de referência para muitos autores centrais da literatura contemporânea. Não só um dos escritores mais importantes do séc XX, é também o mais influente e mais original. Morreu há cem anos, mas a sua obra parece saída do futuro. Influenciou a literatura que veio depois, mas também a música, o cinema e outras artes.

Com Kafka Vai ao Cinema, o realizador Hanns Zischler explica que “em 1978, quando trabalhava num pequeno filme sobre Kafka, descobri pela primeira vez no seu diário e na sua correspondência apontamentos que ele tinha feito sobre o cinema e sobre os filmes que vira. (...) o seu tom excitado, apaixonado e melancólico indicava as vivas emoções que Kafka sentia no cinema.” Assim, este ensaio mostra a pesquisa de Zischler sobre a relação do escritor com o cinema, entre Praga, Verona e Paris, misturando imagens de época e outras de 2002, e conhecendo personalidades que clarificam as ideias do realizador. A sessão tem lugar de 11 de Novembro, às 18h30, no Cinema São Jorge, acompanhada de uma conversa com o realizador.

Apresentamos também Kafka – (un)musical ! (?), um recital com excertos dos diários de Kafka, alguns contos ou excertos de contos, cartas e alguns poemas dispersos. Serão ouvidas obras de Kurtág, Petr Eben, Brahms, Max Brod, Krenek, Bizet, Ligeti e Wagner. As obras de Eben, Brod e Krenek têm agora a sua estreia em Portugal. Terá lugar no Auditório do Liceu Camões, às 18h do dia 12 de Novembro.

O Processo
, de Orson Welles, assenta numa adaptação distópica do livro homónimo de Kafka, e acompanha Joseph K. (Anthony Perkins), um empregado de escritório que é detido e levado a tribunal por acusações que nunca chegará a conhecer. Uma crítica aos sistemas totalitários e à lógica opressora dos grandes estúdios de Hollywood, a narrativa surrealista do filme aliada a uma estética expressionista, levam Orson Welles a considerar O Processo o melhor filme da sua carreira, com sessão marcada para dia 12 de Novembro, às 16h, e conversa com o encenador Krystian Lupa e Hanns Zischler.

Há também encontro marcado com Krystian Lupa no dia seguinte, 13 de Novembro, às 18h30, no Cinema Nimas. A entrada é gratuita para este evento, onde poderemos ver um longo excerto filmado da encenação que fez de O Processo, e onde ele irá explicar detalhadamente o processo de pesquisa e encenação da peça, as dificuldades que encontrou no seu percurso e como estes elementos influenciaram a sua relação com o universo de Kafka.

Já com O Castelo, de Michael Haneke, (13 de Novembro, às 21h, no Cinema Medeia Nimas), baseado num dos livros mais inquietantes de Kafka, mergulhamos num universo de desconforto e confusão, quando um agrimensor é chamado para trabalhar numa aldeia à volta de um castelo e tem que provar a sua legitimidade. Por sua vez, O Castelo, de Rudolf Noelte, distingue-se como sendo a primeira adaptação fílmica da obra homónima de Kafka. Simultaneamente, marca o primeiro e único filme do realizador, cuja carreira foi maioritariamente dedicada ao trabalho na televisão, no teatro e na ópera. A obra de Rudolf Noelte destaca-se pelo seu carácter pessimista e pelos visuais grotescos, que tão bem capturam o surrealismo Kafkiano. Dia 13 de Novembro, às 16h30, no Cinema Medeia Nimas.

Uma double bill a 16 de Novembro, às 21h, no Cinema Medeia Nimas, encerra este ciclo dedicado a Kafka. Primeiro, uma curta: Chacais e Árabes, de Jean-Marie Straub, que nos apresenta uma mulher num apartamento que afirma ser “o chacal mais velho”. Neste deserto, um homem do Norte pede-lhe que intervenha no conflito entre chacais e árabes. Breve e frontal, Chacais e Árabes é uma adaptação do conto homónimo de Kafka como um kammerspiel, que Straub transforma num protesto a todas as formas de ódio. Depois, América - Relações de Classe, também de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub, é adaptado a partir do romance inacabado de Franz Kafka, Amerika. Esta é uma obra sobre um jovem burguês alemão emigrado na América individualista e capitalista dos anos 30 e tudo o que está nos planos do filme, como na escrita de Kafka, ocupa o espaço da nossa atenção, como se, a cada instante, se agarrasse o mundo. No final, haverá conversa com Krystian Lupa, Hanns Zischler, e Paulo Branco.

O LEFFEST não só homenageia Kafka, como também provoca uma reflexão sobre as complexidades da condição humana e os sistemas que nos oprimem. Ao celebrar esta conexão, as obras em exibição convidam-nos a revisitar e reinterpretar o legado duradouro do artista, revelando como as suas ideias continuam a ressoar na contemporaneidade.

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