O exílio toca o mais profundo do ser humano: a sua identidade, o seu ser-no-mundo, a sua relação com o outro. Constitui um desenraizamento, uma ruptura, uma saída de si, mas também, e sobretudo, um acto de sobrevivência. Não é uma simples situação geográfica, nem apenas a consequência de uma separação da terra natal. É também um estado mental, um exílio de si para si. Assim, o autismo, a esquizofrenia, ou outras doenças mentais, podem ser consideradas formas particulares de exílio interior. E, para alguns, como Jean-Luc Nancy, o exílio é mesmo inerente a todos, “uma condição fundamental do nosso ser-no-mundo”. 

A relação da arte com o exílio é tanto mais complexa quanto a arte pode ser uma sobrevivência ao exílio — um penso sobre a ferida de um descarnamento infligido, como evoca Darwish ao falar da poesia como “a língua do exílio, a casa do viajante sem casa” — ou uma sobrevivência pelo exílio — um recolhimento interior que se procura para a autopreservação, ou do mundo. Serge Daney resumia-o assim: “O cinema é a minha terra de exílio”. 

Em ambos os casos, a arte torna-se um lugar de sossego, uma terra habitável. Através de um ciclo de filmes, um cine-concerto, uma exposição, várias conversas e um espectáculo de dança, queremos explorar a complexidade dessa experiência. No entanto, no mundo actual, marcado por genocídios, guerras, crimes em massa e múltiplos episódios de violência de ódio, não podemos tratar o exílio apenas como experiência íntima. É obrigação do festival adoptar também um olhar político e crítico, afirmando a sua posição diante da desumanidade da qual todos somos testemunhas — e, em alguma medida, cúmplices.  

Alguns dos participantes: Hisham Matar, escritor; Haile Gerima, realizador; Hiam Abbass, actriz; Dino D’Santiago, cantor; Carmen Chaplin, actriz e realizadora; Clément Cogitore, artista e realizador; Alberto Ruiz Samaniego, filósofo; Farouk Mardam-Bey, editor e historiador; os artistas do colectivo Dahaleez.