Num tempo de crescente conformismo, vigilância social e indiferença crítica, o ciclo temático (i)moralidades propõe uma reflexão sobre a moral, os costumes e os limites da transgressão. Partindo da ideia de que a moralidade não é um conjunto imutável de princípios, mas uma construção social que devemos continuamente questionar, o programa convoca o cinema e outras formas de expressão artística a criar desconforto, desafiar convenções e abrir espaço ao pensamento.
Estas questões encontram um eco mais amplo num programa que reúne filmes de diferentes épocas e tradições cinematográficas, unidos pelo questionamento dos códigos morais e estéticos estabelecidos. Através da irreverência, do excesso e da transgressão de tabus sociais, estas obras expõem as contradições das sociedades em que surgem e interrogam as fronteiras do que é considerado aceitável. Em Musk, Alex Gibney examina a ascensão de Elon Musk e a influência crescente do empresário na tecnologia e na vida pública, recorrendo a imagens de arquivo e a entrevistas com pessoas que o conhecem de perto. You Can See Everything, de Nathan Fielder e Lance Oppenheim, e Heysel 85, de Teodora Mihai, completam este conjunto de estreias, alargando o programa a diferentes abordagens cinematográficas do presente e das suas contradições.
Através de obras que desafiam as normas sociais e estéticas, o ciclo reúne filmes que questionam as convenções morais e expõem as contradições da sociedade. Em Pink Flamingos (1972), John Waters leva a provocação ao limite, desafiando os códigos do bom gosto e da decência; em Jovens e Atrevidas (Daisies, 1966), Věra Chytilová constrói uma sátira irreverente sobre a ordem social e os papéis de género. Já A Grande Farra (1973), de Marco Ferreri, transforma o excesso numa forma de contestação, enquanto A Comédia de Deus (1995), de João César Monteiro, explora as relações entre desejo, perversão e moralidade. Em Anatomia do Inferno (2004), Catherine Breillat confronta os tabus em torno do corpo e da sexualidade, e Salò ou os 120 Dias de Sodoma (1975), de Pier Paolo Pasolini, expõe a violência inerente às estruturas de poder. A estas obras junta-se Minha Mãe (2004), de Christophe Honoré, que interroga os limites entre desejo, transgressão e interdito.
A questão moral estende-se também à esfera política, onde a legitimidade, a responsabilidade e o exercício do poder são colocados em causa. Em Peço a Palavra (Mr. Smith Goes to Washington, 1939), Frank Capra confronta os ideais democráticos com a corrupção institucional; em American Dharma (2018), Errol Morris interroga a relação entre ideologia, poder e responsabilidade política. Por sua vez, Hyènes (1992), de Djibril Diop Mambéty, explora as relações entre dinheiro, vingança e justiça, enquanto Aves de Rapina (Greed, 1924), de Erich von Stroheim, acompanha a destruição de vidas sob o peso da cobiça. Em Dia de Cólera (1943), Carl Th. Dreyer, a intolerância e o fanatismo religioso revelam as consequências da imposição de uma ordem moral.
A proposta inclui ainda uma revisitação dos Sete Pecados Capitais através de um conjunto de sete filmes, cada um dedicado a um dos pecados, a par de Seven – 7 Pecados Mortais (1995), de David Fincher, que os reúne numa narrativa em que um assassino em série escolhe as suas vítimas em função dos sete pecados capitais. Esta revisitação parte também do olhar de mulheres artistas das sete artes, abrindo espaço a uma reflexão sobre a forma como os comportamentos considerados condenáveis são definidos, representados e julgados. Mais do que reproduzir uma classificação moral herdada da tradição, esta abordagem permite interrogar os valores que a sustentam e as perspectivas a partir das quais se constroem as ideias de virtude, culpa e transgressão.
A reflexão sobre a moralidade passa igualmente pela ética da representação. A exibição de Kapò (1960), de Gillo Pontecorvo, será acompanhada por uma conversa em linha com o crítico francês Jean Narboni, em torno do célebre texto de Jacques Rivette, De l’abjection (1961), que questiona a legitimidade ética das escolhas formais na representação do horror e da violência histórica.
O programa alarga-se a outras formas de expressão artística e a experiências que cruzam cinema, performance, literatura e pensamento. A Idade de Ouro (1930), de Luis Buñuel, será acompanhado por uma performance ao vivo de Rodrigo Amado, no saxofone, e David Maranha, na percussão e no órgão. A palavra e a literatura ocupam também um lugar central, com leituras de Georges Bataille por Angélica Liddell, de Sade por Catarina Wallenstein e de Jean Genet por Béatrice Dalle. O ciclo inclui ainda uma sessão de escuta colectiva do podcast Fumaça, dedicada ao episódio “Fronteira do Medo”, seguida de uma conversa sobre violência policial.
Ao reunir obras tão distintas, de diferentes épocas e cinematografias, (i)moralidades não propõe uma defesa indiscriminada da transgressão. A questão é também saber que transgressões queremos defender e a que valores pretendemos resistir. Num tempo em que os juízos se cristalizam e o debate se estreita, o ciclo reivindica a capacidade da arte para perturbar o consenso, abrir fissuras nas convenções e devolver-nos a possibilidade de pensar perante o desconforto.