(i)moralidades

Gostamos de acreditar que a moralidade depende dos conceitos de “bem” e “mal”, e tendemos a esquecer como a própria etimologia da palavra está relacionada com os nossos costumes. A moral é qualquer coisa que construímos, no fazer e no pensar. Não dependemos dela: criamo-la. É deixando de a questionar, e de manter esse diálogo íntimo, que chegamos a uma sociedade banalizadora do mal, como tão bem identificou Hannah Arendt. À semelhança do que se viu acontecer nos anos 40, a falta de debate e reflexão é quanto basta para justificar qualquer acção — por mais extrema que seja. O mesmo está a acontecer agora.

Este ciclo não pretende, porém, revisitar a imoralidade, ou amoralidade, das políticas. O foco é ainda outro: a nossa falta de imoralidades. Como é que se pode lutar contra os novos “bons costumes” que, de dia para dia, vemos enraizar-se? Talvez transgredindo, em vez de nos escondermos atrás de conceitos morais construídos, velhos, usados e reusados, juízos e modas de politicamente correcto.

Nesse sentido, haverá algo melhor do que a arte para criar desconforto e gerar pensamento? Para o bem e para o mal, são as imoralidades que nos tornam mais humanos: mas atenção às que queremos defender!