É muitas vezes de países longínquos que nos surgem hoje os filmes mais interessantes, longe da formatação de muito do cinema ocidental. O LEFFEST organiza um foco no cinema da Ásia Central (Cazaquistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Quirguistão), concebido com as curadoras Gulnara Abikeyeva e Julia Kim.
Uma escolha de 12 filmes que vêm das Novas Vagas dos anos 80 até ao presente, alguns deles apresentados pelos/as realizadores/as. Paisagens físicas e mentais, montanhas e estepes grandiosas, cidades, rostos e gestos, múltiplas identidades culturais, uma mística singular, a inquietação, uma espécie de solidão colectiva e, em vários deles, uma melancolia doce que nos hipnotiza — é tempo de descobrir estas obras poderosas e únicas e olhar para elas com o reconhecimento que merecem.
—
Este ano, o Lisboa Film Festival apresentará um vasto programa especial dedicado ao cinema da Ásia Central, onde Ocidente e Oriente, modernidade e antiguidade se entrelaçam de forma surpreendente.
O programa inclui 12 filmes do Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tajiquistão, todos eles premiados em festivais internacionais. Filmes que revelam as culturas nómadas dos cazaques e quirguizes, as culturas sedentárias dos uzbeques e tajiques e, sobretudo, essa diversidade, assim como as suas narrativas cinematográficas. São como caleidoscópios de beleza e paixão, energia, resiliência, sobrevivência, riso e dor. Esta retrospectiva percorre mais de trinta anos, e começa com o filme cazaque The Needle (1988), de Rashid Nugmanov, que se tornou emblemático para toda a União Soviética ao anunciar o fim da era soviética. A sua personagem principal — o cantor Viktor Tsoi — proclamava: “A partir de agora, vamos agir!”
A queda do Muro de Berlim e o colapso da URSS deram aos países da Ásia Central a oportunidade de criar os seus próprios cinemas nacionais; a liberdade e a consciência da identidade nacional tornaram-se privilégios trazidos pela independência. Assim, o público poderá ver filmes belíssimos, plenos de exotismo e tradições, como The Adopted Son (Beshkempir, 1998), do realizador quirguiz Aktan Arym Kubat, e o filme tajique Angel on the Right Shoulder (2002), de Djamshed Usmonov: na tradição muçulmana, acredita-se que cada pessoa tem anjos, e que o da direita regista as boas acções. Já Tulpan (2008), de Sergey Dvortsevoy, impregnado pelo aroma da estepe, conquistou o Grande Prémio da secção “Un Certain Regard” em Cannes.
O cinema da Ásia Central distingue-se também pelo seu teor social. Nos 34 anos de independência, surgiu uma nova geração que fala com ousadia de problemas como a pobreza, a corrupção, o bullying escolar e a violência contra as mulheres. Entre esses filmes contam-se Harmony Lessons (2013), de Emir Baigazin, vencedor do Urso de Prata em Berlim e do Grande Prémio do Júri no LEFFEST; Move (2014), de Marat Sarulu; 40 Days of Silence (2014), de Saodat Ismailova; e Abel (2023), de Elzat Eskendir.
O programa inclui também obras repletas de ironia e humor. Por exemplo, no filme cazaque Walnut Tree (2016), de Yerlan Nurmukhambetov, os convidados reúnem-se para um casamento, uma família oferece um tapete como presente, mas, sendo-lhes recusada a oportunidade de brindar, decidem levá-lo de volta. Já Sunday (2023), de Shokir Kholikov, pleno de luz solar e humor, retrata idosos uzbeques de uma aldeia que não conseguem lidar com novos dispositivos tecnológicos. O filme recebeu um prémio no Festival de Xangai.
Em suma, esta retrospectiva destina-se tanto a cinéfilos exigentes, que valorizam inovações na linguagem cinematográfica, como a espectadores comuns, que desejam descobrir novas culturas e mundos. É de destacar, em particular, a inclusão do filme histórico The Fall of Otrar (1991), de Ardak Amirkulov — sobre a defesa da cidade estepe de Otrar contra as forças de Genghis Khan —, uma obra que acaba de ser restaurada por iniciativa da fundação de Martin Scorsese, e que iniciou uma nova digressão mundial. Como se vê, a retrospectiva reúne tanto filmes relativamente antigos, do final dos anos 1980, como obras totalmente novas de 2025, como Mergen, de Chingiz Narynov, cujo guião entrelaça motivos de um romance de Chingiz Aitmatov com realidades contemporâneas.
Esta retrospectiva não é apenas um acontecimento artístico, mas também um gesto académico: permite-nos acompanhar como as escolas nacionais de cinema da Ásia Central se foram moldando no cruzamento entre tradição e modernidade, legados coloniais e transformações pós-soviéticas. Ao mesmo tempo, estes filmes são histórias humanas vivas de amor e memória, luta e esperança, que ressoam junto de públicos de todo o mundo. O LEFFEST convida assim a descobrir o cinema centro-asiático como um espaço de diálogo cultural e emocional, onde passado e presente se fundem em novas formas artísticas, e o futuro nasce diante dos nossos olhos.
Gulnara Abikeyeva
[co-curadora do programa, com Julia Kim]