A Morte do Diabo: LEFFEST’26 desafia as fronteiras entre o bem e o mal

31.10.2026

Crime sem castigo. Euforia sem ressaca. Revelação sem sacrifício. O cinema sempre tendeu a impor uma visão maniqueísta do mundo, oferecendo resoluções fáceis e reconfortantes, mas falsas e manipuladoras – não tem de ser assim, como prova o ciclo A Morte do Diabo.

Em Os Diabos (1971), Ken Russell revisita o caso de Loudun, em França, onde as acusações de bruxaria contra o padre Urbain Grandier se tornam um instrumento de disputa entre a Igreja e o Estado. O fanatismo religioso e a instrumentalização política da fé expõem os mecanismos através dos quais a autoridade fabrica a culpa e legitima a perseguição. Noutro registo, Polícia Sem Lei (1992), de Abel Ferrara, acompanha um polícia corrupto confrontado com os próprios actos, enquanto Polícia Sem Lei: Porto de Nova Orleães (2009), de Werner Herzog, explora a degradação moral de um agente cuja autoridade se confunde com a dependência e o abuso. A estes dois filmes junta-se Bad Lieutenant: Tokyo (2026), de Takashi Miike, que completa a trilogia exibida pelo LEFFEST num único dia, a 10 de Novembro, no Cinema Medeia Nimas.

O ciclo inclui ainda obras que levam a representação da violência aos seus limites, como Faces of Death (1978), de John Alan Schwartz, uma compilação de imagens de mortes, acidentes e guerras, e Caniba (2017), de Véréna Paravel e Lucien Castaing-Taylor, que acompanha Issei Sagawa, responsável pelo assassinato e canibalização de uma estudante em Paris. Em conjunto, estes filmes confrontam o espectador com imagens e figuras difíceis de acomodar em categorias morais estáveis, questionando tanto os limites da representação como a posição de quem olha.

Mais do que abolir a distinção entre o bem e o mal, A Morte do Diabo propõe olhar para os sistemas que a definem e para as realidades que as suas classificações ocultam. Ao subverter as convenções cinematográficas e morais, o ciclo procura devolver ao cinema a capacidade de perturbar certezas e de nos fazer olhar de outro modo para o mundo.