A Competição Oficial do LEFFEST é um mapa sensível do cinema contemporâneo. Onze filmes percorrem diferentes geografias e linguagens para explorar as tensões da vida privada, as relações de poder e a experiência colectiva. De realizadores consagrados a vozes que se afirmam no panorama internacional, esta selecção reúne diferentes formas de interrogar o mundo através do cinema. O júri da Competição Oficial é presidido pelo cineasta David Cronenberg e integra a artista e dramaturga Angélica Liddell, o realizador Charles Burnett, a cineasta Milagros Mumenthaler, o violinista e maestro Gidon Kremer e a jornalista Andrea Camprincoli. Caberá a este painel distinguir o vencedor do Grande Prémio NOS, uma criação do artista Julião Sarmento.
A família surge como território de afectos, conflitos e segredos que resistem à passagem do tempo. Em Mariage au goût d’orange, de Christophe Honoré, o casamento de Jacques, em Março de 1978, reúne os sete irmãos da família Puig. À medida que a celebração avança, vêm ao de cima segredos e feridas de infância. Adaptando a sua própria peça, Le Ciel de Nantes, Honoré transforma o reencontro numa reflexão sobre as marcas do passado e a fragilidade dos laços familiares. Em Scherzetto, Mario Martone coloca frente a frente um ilustrador viúvo e o neto de cinco anos. De regresso a Nápoles para cuidar da criança durante alguns dias, Daniele Mallarico vê a sua rotina perturbada por um duelo entre gerações, em que se disputam espaço e autoridade. Com Toni Servillo no papel principal, Martone observa os equilíbrios e as convenções da vida familiar.
O desejo de escapar ao destino traçado pelos outros atravessa também histórias de formação e sobrevivência. Em Butterfly Jam, Kantemir Balagov acompanha Pyteh, um adolescente de dezasseis anos que divide os dias entre a luta livre e o restaurante circassiano da família, em Newark. Quando uma decisão impulsiva do pai ameaça o negócio familiar, o jovem vê-se obrigado a crescer depressa, dividido entre a responsabilidade e a tradição. Com Barry Keoghan, Riley Keough e Harry Melling, o filme explora o conflito entre as expectativas herdadas e a construção de um caminho próprio. Em Moscas, Fernando Eimbcke acompanha Olga, que começa a arrendar um quarto a um homem cuja mulher está internada num hospital próximo. A presença do filho de nove anos do inquilino vem perturbar a rotina metódica da mulher, dando origem a um vínculo inesperado. O filme foi distinguido com o Prémio do Júri Ecuménico no Festival de Berlim de 2026.
As fronteiras geográficas e sociais abrem caminho a universos que permanecem, à primeira vista, invisíveis. Em The Dreamed Adventure, de Valeska Grisebach, Veska, uma arqueóloga numa pequena cidade fronteiriça da Bulgária, tenta ajudar Said, um conhecido a quem roubaram a viatura. O gesto arrasta-a para uma rede de ligações criminosas escondida sob a aparente tranquilidade da comunidade. Premiado pelo júri do Festival de Cannes de 2026, o filme aproxima-se do western para explorar um território onde as fronteiras morais se tornam tão incertas como as geográficas. Em O Diário de uma Criada de Quarto, Radu Jude acompanha Gianina, uma jovem romena que vive em França e trabalha como empregada doméstica para uma família burguesa. À noite, participa nos ensaios de uma companhia de teatro amador que prepara uma adaptação de Diário de uma Criada de Quarto, de Octave Mirbeau, enquanto a filha, na Roménia, sente a sua ausência. Entre o trabalho, a representação e a distância, Jude aproxima duas realidades atravessadas pela migração e pelas desigualdades sociais.
A memória irrompe no presente e transforma a relação com aqueles que nos rodeiam. Em Everytime, Sandra Wollner acompanha uma mãe, a filha mais nova e o namorado da filha mais velha, unidos por uma tragédia ocorrida em Berlim. Um ano depois, os três partem para Tenerife, retomando as férias interrompidas. Sob o sol das Canárias, passado e presente entrelaçam-se numa tentativa de ultrapassar o luto. Com Birgit Minichmayr e Lotte Shirin Keiling, o filme integrou a secção Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2026. Em La perra, Dominga Sotomayor leva-nos a uma ilha remota do sul do Chile, onde Silvia, uma mulher solitária que vive da apanha de algas, adopta uma cadela abandonada a que dá o nome de Yuri, o mesmo que escolhera para a filha que nunca teve. Quando o animal desaparece, desperta-se um trauma de infância. Ao questionar as convenções das narrativas sobre a relação entre humanos e animais, Sotomayor constrói um filme sobre a solidão, a memória e o desejo de maternidade. A obra integrou a Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes de 2026.
A arte e a política revelam as contradições dos sistemas que organizam a vida colectiva. Em Os Christophers, Steven Soderbergh reúne Ian McKellen, Michaela Coel, Jessica Gunning e James Corden numa comédia sobre arte, comércio e ressentimento. Julian Sklar, um artista de renome na cena londrina desde os anos 1960, vive afastado dos filhos, que contratam uma falsificadora para terminar uma série de quadros inacabados e garantir a herança. O plano abre um jogo de interesses em torno da autoria e do valor da obra de arte. Em Notre Salut, Emmanuel Marre regressa a Setembro de 1940, quando o regime de Pétain se instala em França. Henri Marre, um engenheiro de 49 anos, chega a Vichy sem dinheiro nem contactos, levando consigo um tratado político que acredita poder contribuir para salvar o país. Convencido de que pode intervir no curso da História, procura conquistar um lugar no novo regime. Mas estará a tentar salvar a França ou a si próprio? O filme recebeu o prémio de Melhor Argumento no Festival de Cannes de 2026.
A selecção inclui ainda Ela Olhava sem Nada Ver, o novo filme de Fanny Ardant, com produção portuguesa e rodado nos Açores. Encontrada à beira de uma lagoa numa ilha remota, uma jovem sem nome é acolhida por Gabriela, uma mulher enigmática que lhe dá o nome de Malvina. Num território marcado por segredos, luto, contrabando e vingança, a memória regressa em fragmentos. Com Carolina Amaral, Ana Padrão, Paulo Pires, Miguel Borges e Gérard Depardieu, o filme constrói uma narrativa de mistério em torno de uma identidade por reconstruir.
De 6 a 15 de Novembro, estas onze obras encontram-se no LEFFEST para disputar o Grande Prémio NOS. Das tensões familiares às contradições políticas, da experiência migrante às marcas da memória, a Competição Oficial reúne diferentes formas de filmar e pensar o presente. Um encontro entre filmes, realizadores e espectadores que faz do cinema um espaço de descoberta e partilha.